A Arte de Ouvir
Por
Luiz Antônio
Moreira e Marcelo S. Petraglia
Conta
a lenda que um discípulo
de Tomás de Aquino, vendo o mestre sempre debruçado
sobre sua mesa de trabalho, absorto em estudos, resolveu
pregar-lhe uma peça. Aproximou-se e disse: "Mestre,
há um boi voando lá fora". Imediatamente
o sábio se levantou, correu e olhou pela janela.
Ao voltar encontra seus fâmulos rindo e o que havia
feito a troça disse: "Mestre como pôde
o senhor acreditar que um boi pudesse voar? " Ao que
Tomás de Aquino respondeu: "preferi acreditar
que um boi voasse, a pensar que você me enganaria".
Esta
atitude inusitada do grande filósofo,
nos aponta para uma qualidade essencial da arte de ouvir:
a atitude despreconceituosa diante do novo, a capacidade
para deixar de lado os conceitos prontos do que é,
e do que não é a realidade. Ser de certa forma
como criança quando o outro esta falando, pois ali
a novidade pode acontecer. Uma criança eterna dentro
de nos que cresce e aprende com tudo que ouve.
Ao
ouvir, nos colocamos diante de algo que é distinto do nosso próprio ser.
Precisamos nos esforçar para, mesmo que temporariamente,
aceitar o outro dentro de nos. A imagem da criança
neste sentido surge de forma poderosa, pois sendo ela como
uma esponja, que absorve todas as impressões que
a rodeiam, sem barreiras ou filtros, é muito mais
apta a aprender e a ter verdadeiros encontros. Enquanto
estamos ouvindo de forma genuína, estamos exercitando
uma nova infância, um renascer para a realidade que
surge.
O
grande sabotador deste estado de ser é a dúvida. Como vimos no episódio
de São Tomás, ela não se manifestou
no momento em que ele escutou seu aluno. A dúvida
tem pouco a ver com a natureza da criança. Ela é
fruto de um processo crítico adulto, que não
deve ser descartado, mas que se torna fatal quando invade
o espaço da escuta. Quando em uma conversa ela surge,
nascida do diálogo interno com meus velhos conceitos,
já estou muito distante do meu interlocutor e paralisado
na escuta.
Ouvir,
neste sentido, pode tornar-se um forte aliado para o
desenvolvimento individual e coletivo
do ser humano, pois baseia-se em uma sincera abertura para
o novo e na confiança e amor pelo próximo.
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