Educação
Musical
Por Marcelo S. Petraglia
Crescendo com música
Ao
longo das ultimas décadas,
nas instituições de ensino e na mentalidade
das pessoas em geral, desenvolveu-se a tendência,
de levarmos as crianças e jovens, a assimilarem a
maior quantidade de informações possível
e o quanto antes, pensando que desta maneira estaríamos
preparando realisticamente os futuros adultos. Passamos
a dar mais ênfase ao aspecto quantitativo, negligenciando
a tarefa formativa da educação.
Na
verdade, em todo o mundo hoje, começa-se
a perceber que esta maneira de agir esta levando a um empobrecimento
das possibilidades do ser humano pois a informação
de hoje pouco valor terá daqui a dez anos e o momento
em que a alma humana estava aberta, maleável e passível
de adquirir bases sólidas para a vida futura, passou.
Em questão de educação, realmente vale
o ditado: "malhar o ferro enquanto esta quente".
Quando
pensamos agora em uma real formação
do indivíduo, queremos acima de tudo desenvolver
suas potencialidades. Torna-lo apto a, no futuro, aprender
tudo que quiser e precisar, ter a disposição
infinitas formas de pensar, sensibilidade para perceber
sua relação com os outros e o mundo e vontade
de agir e transformar seu meio ambiente. Isto significa
que a criança em fase escolar deveria ter a possibilidade
de desenvolver as potencialidades de sua alma, sem contudo
dar a seus processos uma forma cristalizada e definitiva.
O que tentaremos mostrar a seguir é como, nesse sentido,
as artes e em especial a música são uma ferramenta
poderosa e indispensável.
A vida entre os tons
Crianças normalmente gostam
de cantar, dançar ou pintar, isto faz parte da sua
natureza. Elas intuitivamente sabem que estas atividades
atuam intensamente no seu ser, ajudando-as a estruturar
seu organismo. Podemos observar como, que através
da música a criança da continuidade ao desenvolvimento
de seu sistema motor, ao mesmo tempo que lança as
bases para um pensar vivo e criativo, fazendo isso permeada
por um sentimento de beleza e comunhão.
Podemos
entender este processo a partir de três atividades básicas: primeiro, a procura
e desenvolvimento da afinação; segundo, a
aquisição da vivência do pulso e do
ritmo; e terceiro, aquilo que podemos chamar de "ouvir
social".
Afinar
a voz (e o ouvido ) é
buscar e incorporar as leis objetivas que ordenam os tons,
deixando fluir essas leis ao organismo do canto. Todos nós
somos capazes de perceber o "afinado" ou "desafinado"
porque de alguma forma possuímos essas leis impressas
no nosso organismo. Temos nas relações entre
os tons algo que é culturalmente estável e
que se apresenta a todos os indivíduos de forma objetiva.
Temos aqui e também no elemento rítmico, um
dos pontos de contato entre a música e a matemática,
pois tons e intervalos musicais expressam suas leis através
de números, mais precisamente por meio de proporções.
Uma
melodia é basicamente uma
ordenação desses tons no tempo, de forma fluida
e com significado. Ao cantar uma canção, a
criança se amolda a essas leis e movimenta no seu
íntimo, aquela força que é capaz de
unir e ordenar tons, dando-lhes um sentido. Podemos observar
aqui, uma atividade análoga ao processo que mais
tarde lhe permitirá identificar, ordenar e utilizar
conceitos corretos para formular um pensamento, só
que na música ainda se mantém sob a forma
pura de movimento. Cantar afinado é um processo que,
desta forma, prepara um futuro pensar claro e sadio, sem
contudo atulhar a criança com conceitos fixos e
endurecidos.
Conquistando a si mesmo
Do
outro lado temos o impulso do ritmo que, a princípio, é caótico e incontrolável.
São aqueles impulsos inconscientes que nos impelem
ao movimento, nos fazem dançar e atuam no nosso sistema
metabólico, transformando substância em energia.
Ao se exercitar na música, a criança tem a
tarefa de dominar este impulso, dando-lhe forma, sentido
e tomando as rédeas de sua vontade nas mãos.
Ritmo
e pulso são aqueles elementos
que nos colocam musicalmente em contato com o tempo e a
terra. Batemos palmas e os pés no chão, vivenciando
o fluxo musical através de nos. A criança
trabalha no sentido de levar sua consciência até
as extremidades dos seus membros, tomando assim posse do
seu corpo. E quando lentamente fortalece seu cerne e adquire
a segurança de um pulso próprio, é
capaz de se antepor como indivíduo aos demais e ao
mundo. Este é um passo fundamental no desenvolvimento
da individualidade, que ao redor dos nove anos de idade
começa a se consolidar e torna-se musicalmente audível.
De grande ajuda para a criança nesse momento, podem
ser os exercícios em que ela é solicitada
a manter um pulso ou ritmo próprio contra os demais,
pois isso significa abandonar a consciência de união
com o meio ambiente e penetrar com mais confiança
e profundidade na própria corporalidade. Neste gesto
de independência encontramos o primeiro alicerce
para um agir autodeterminado e livre no futuro.
Cantando juntos
Neste
caminho de desenvolvimento, o elemento social torna-se
o ponto central de todo o processo.
A cada momento a criança vivência a alternância
entre atuar e observar, cantar e ouvir. Aprender a ouvir
o outro, a perceber a consonância ou dissonância
do todo e encontrar a maneira adequada de com eles se relacionar;
este é o grande aprendizado que ela pode fazer através
da música. E como já dissemos, a vivência
que a ela toca de forma integral, não apenas apelando
ao aspecto intelectual, é aquela que pode plasmar
a alma incutindo-lhe sadias formas de atuação.
Podemos dizer que: crianças que se exercitam, coletivamente,
repetindo incontáveis vezes a mesma canção
ou peça instrumental, com a intenção
de aprimora-la, estão praticando uma vontade social
construtiva e buscando em conjunto, a harmonia do todo.
Aprendendo, no contexto geral, a partir do seu íntimo,
dar a sua contribuição, com prazer e alegria
de crescer com os outros.
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