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O Tempo na Música

Por Marcelo S. Petraglia

Pulso

Para o nosso estudo seremos obrigados a desmembrar o fenômeno sonoro em seus diversos aspectos, no intuito de aprofundar nosso conhecimento dos mesmos. Essa atitude metodológica é tão necessária quanto incômoda, pois queremos no final das contas conhecer o "Ser Musical" e não simplesmente a soma dos seus pedaços. Portanto, ao isolarmos um aspecto do todo, o fazemos tão somente para que ele se torne mais claro e vivo à nossa compreensão e venha no momento seguinte reintegrar e enriquecer a imagem do todo.

Por mais que já se tenha falado e pesquisado sobre nossa relação com o tempo, ele é um fato da vida sobre o qual não possuímos nenhum poder e que por isso nos fascina e amedronta. Usamos (até vendemos) o tempo, mas não temos sua posse. Criamos e utilizamos medidas que nos servem para organizar os fatos históricos e cotidianos da vida, mas sabemos que nossa vivência do tempo escapa ao cronômetro. Temos ainda que admitir que somos totalmente incapazes de abarcar unidades de tempo muito longas ou muito curtas. O tempo das montanhas assim como a vida de uma centelha que salta do fogo, para não falar em ciclos ainda mais extremos, foge à nossa percepção. Somos obrigados, de maneira justificada, a tomarmos a nos mesmos como referência para definirmos o longo e o curto.

Um outro fato também, é de que necessitamos de algo cíclico e constante para termos uma vivência mais consciente do fluir do tempo. Por sorte este elemento nos é dado em abundância pela natureza e por nossa própria organização biológica. O curso do ano, os ciclos estrelares e planetários, a semana, os dias, nossa respiração, o coração, nos servem como balizas dentro do fluxo irrefreável do tempo. Neste movimento inevitável, que nos precipita sobre o futuro a cada instante, nos apoiamos em pontos virtuais que são, como veremos mais adiante, nada mais do que o ponto de inversão entre o fim de um ciclo e o início do próximo. O ciclo, com sua redundância, com seu constante movimento de contração e expansão, por um lado, nos dá a segurança, a coragem, a ilusão da posse do tempo que necessitamos para ordenar e dar seqüência à vida, por outro a certeza de que vivemos apartados da eternidade. Pois a eternidade está para além das fronteiras do imessuravelmente longo ou do infinitamente curto e não pressupõe movimento ou retorno. A eternidade é. Vamos agora, tentar chegar com nossa vivência, mais perto de tais fenômenos.

Proponha-se um exercício. Fique de pé, firme no chão, com um par de bastões de madeira nas mãos. Num ambiente de total quietude, concentre-se no seu interior e mapei os muitos sons e pulsos que naturalmente sobem à consciência neste estado. Conhece-los é importante para não se deixar levar neste momento em que buscamos contato com uma camada da consciência autônoma em relação aos processos fisiológicos.

Tente agora abarcar uma porção dilatada do tempo, leva-la ao extremo da duração, numa expansão continua, como se tivesse adentrado a "eternidade".

Podemos então, a partir de um certo ponto, sentir que dentro de nos, uma certa vontade começa a se delinear e crescer. A vontade (muitas vezes acompanhada de ansiedade) de que "algo" aconteça. "Algo" interrompa esta "pequena eternidade". Conviva com esta tensão e deixe que ela cresça até o ponto de não ser mais suportável . Então bata os bastões marcando com energia este momento. Temos agora uma "eternidade" para traz e uma nova "eternidade" diante de nos. Repita este exercício algumas vezes e atente para os distintos momentos do processo: o período de acúmulo de tensão antes da batida, a batida, o momento logo após a batida e o gradativo esvanecer do som da batida no tempo, o ponto neutro entre uma batida e outra. Podemos nos perguntar: o que de fato se acumula e que torna, a partir de um certo ponto, inevitável que se bata os bastões? Porque a sensação de alívio após a batida? Mas vamos ainda fazer algumas considerações antes e de tentar elucidar estas questões.

Estamos numa situação de tal dilatação do tempo que não nos é possível julgar com segurança a duração do tempo entre uma batida e outra. Sentimos ou intuímos a sua duração, mas não poderíamos dizer se duas durações foram iguais ou quanto uma foi maior que a outra. Isso só se torna possível na medida que nos afastamos das longas durações da "pequena eternidade" e nos aproximamos daquilo que chamarei de dimensão humanamente quantificável do tempo. Parece-me que as unidades de tempo se tornam mais objetivas e mensuráveis para nos, quando cabem dentro de um ciclo respiratório normal. Tente marcar pulsos longos, sem subdividi-los mentalmente, peça para alguém conferir com um metrônomo de pulso luminoso e veja até onde seu julgamento do tempo é confiável. No outro extremo, quando tentamos acelerar ao máximo um pulso também experimentamos um limite, se não físico-motor, em nossa própria mente que se mostra incapaz de imaginar e manter-se consciente da contração e expansão inerente a cada pulso, acima de certas freqüências, acabamos por imaginar um som contínuo. Músicos treinados, naturalmente tendem a expandir estes limites, mas toda a prática do mundo não os leva a suprimi-los. Freqüências da ordem de centenas de Hz, ou mais, podemos conceber apenas abstratamente, mas dificilmente vivênciar ou imaginar com clareza; como da mesma forma, dimensões de tempo da ordem dos milhões de anos.

Voltando ao nosso exercício, podemos dizer que o momento da batida é aquele ponto onde nossa intenção toca algo sólido, físico-material. É um momento de resistência que nos acorda em nos mesmos e se contrapõe ao estado dilatado e, poderíamos dizer, cósmico em que estávamos. Entre uma batida e outra percorremos um caminho interior guiados por um impulso de movimento que após se afastar de sua origem procura o ponto de inversão, para dali se encaminhar para um novo contato com o "elemento sólido". Se observarmos com atenção veremos que este ponto de contato e resistência não precisa ser necessariamente algo fisicamente perceptível. Todo praticante de música aprende a contar os tempos mentalmente. Ele pode até suprimir a representação por números (1...2...3...4... etc.) e chegará a perceber um pulsar que se dá numa substância totalmente imponderável que chamarei de "substância volitiva". O ponto de "contato" que contamos mentalmente, é vivenciado como um momento de maior pressão ou concentração de substância volitiva.

O ciclo segue seu caminho dissolvendo esta concentração até chegar ao ponto zero, o polo oposto da concentração da concentração. Se parássemos nesse ponto e nele permanecêssemos, sairíamos do mundo espaço-temporal e nos perderíamos na eternidade. Felizmente, ou infelizmente, na prática isto não se dá. Somos capazes apenas por um atma tocar este ponto para no instante imediatamente seguinte sermos lançados em direção à uma nova concentração. Notamos que a partir do ponto zero, somos progressivamente impelidos para o momento da marcação do pulso, seja ele manifesto pelo som externo, seja como vivência puramente interna. Somos como que sugados por um ponto no futuro até que a batida ou marcação aconteça. Esta, é um marco que orienta a rota do viajante e o certifica de que esta acordado e no caminho certo, mas que não deve de forma alguma ser confundida com a viagem em si. O que segue podemos caracterizar como sendo um momento voltado ao passado, pois retemos na memória o marco que acabamos de passar e acompanhamos seu desaparecimento gradativo. E assim chegamos ao ponto zero novamente, onde o sentido da nossa atenção se inverte e onde a corrente do passado e do futuro se tocam.

Podemos representar este processo de forma esquemática, da seguinte maneira:

Libertamos um som que se propaga no espaço e que simultaneamente ressoa em nosso interior. Nossa percepção atua em dois âmbitos: de um lado acompanhamos a ressonância no espaço (sala, ar livre, etc.), por outro sentimos o fluxo do tempo em nosso interior e avaliamos, medimos, a duração do pulso buscando uma interação destes dois mundos. Um exemplo disso é quando executamos uma mesma peça musical ora em uma sala com grande reverberação e depois em um ambiente sonoramente seco. Naturalmente tenderemos a toca-la mais lenta onde a ressonância é maior e vice-versa.

Vale ressaltar que é durante o caminho interior do pulso que temos a liberdade de acelera-lo ou retarda-lo. É na sua parte não manifesta que ele permite ser transformado, sendo a marcação apenas o ponto de referência. Podemos concluir que o verdadeiro artista é aquele que intensamente vivência e preenche de sentido o caminho que leva de uma marcação a outra no fluir dos pulsos. Chegamos aqui a um elemento fundamental para a arte musical: a vivência do "entre". É na vida entre a marcação dos pulsos, assim como veremos adiante, na vida entre os tons, que o propriamente artístico-musical se manifesta.

Compasso e Subdivisão

Passemos agora a olhar como, a partir deste elemento básico, todo um universo rítmico se desdobra. Aquilo que musicalmente chamamos de pulso, compasso e ritmo podem ser entendidos como fruto das inter-relações e sobreposições de elementos cíclicos básicos.

Tome agora um pulso confortável, mantenha-o de forma mais regular e homogênea possível, sem atrasar, sem correr, todas as marcações coma mesma intensidade. Após algum tempo provavelmente sentiremos uma certa falta de interesse e cansaço pela monotonia deste pulso. Ele que nos trouxe para uma vivência mais terrena da música, se comparamos com o tempo intuído, não medido do canto gregoriano e outros estilos de tempo "livre", agora pela redundância perde sua vitalidade e faz nossa consciência adormecer.

Seguindo nosso princípio básico da resistência como geradora de consciência, vamos contrapor a este pulso algo que possa ser simultaneamente diverso e integrado com sua natureza. Tomemos outro pulso, porém com duração dobrada em relação ao primeiro e sobrepomos um ao outro, de modo que a marcação do segundo coincida a cada duas marcações do primeiro. Temos assim uma ênfase pela soma das duas concentrações a cada dois pulsos do menor. Isso traz uma respiração cíclica para nosso primeiro pulso vivificando-o. Temos agora o que chamamos de compasso com seu tempo forte e tempo fraco.

Compassos são, neste sentido, agrupamentos de pulsos diferenciados por um pulso mais forte. Um pulso mais longo que abarca e gera uma dinâmica em grupos de pulsos mais curtos de maneira periódica. Os diferentes compassos são resultado das diferentes combinações entre um pulso básico e o pulso que os agrupa em diversas unidades métricas. Um exemplo clássico é a relação entre o ciclo respiratório e o puslo cardíaco. Nos adultos estes dois cíclos se relacionam, em média, na proporção de 1:4, isto é: para cada ciclo respiratório completo, quatro "batidas" do coração.

Assim podemos ter compassos de diversos tamanhos: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 pulsos, e teoricamente com quantos pulsos quisermos, onde a definição auditiva do compasso se dá sempre pela ênfase no primeiro pulso do grupo. É interessante observar que a partir de quatro pulsos por compasso surge a vontade, ou necessidade de subdividi-lo, fazendo um ou mais acentos leves nos pulsos intermediários, como que para nos orientar no percurso do grande arco do compasso. No compasso de 4 pulsos, somos levados a enfatizar naturalmente o 1o e de forma mais leve o 3o pulso. O compasso de 5, podemos subdividi-lo em 2+3 ou 3+2, o de 7 em 3+2+2, 2+2+3, 2+2+2+1 ou ainda em qualquer uma das demais possibilidades de agrupamento interno. A subdivisão dos compassos com mais de 3 pulsos não é uma exigência obrigatória da nossa alma, mas uma tendência que parece ter como função vivificar e balizar o arco de percurso de um tempo forte ao outro; como vimos muitos pulsos seguidos sem uma diferenciação dinâmica, tendem ao mecânicamente morto.

Tomemos agora um pulso confortável, por exemplo o nosso andar. O andar naturalmente nos induz a um compasso binário em função da alternância esquerda-direita das nossas pernas. Comecemos a dividir este pulso com nossas palmas: primeiro em um, com uma palma para cada pé, depois em dois, em três, em quatro, sempre atentando para que as divisões estejam regulares e de igual tamanho entre si. Noto que a divisão em um, dois, quatro e seus múltiplos ocorre de forma bastante regular e precisa. Já a divisão em três, seis e nove, parece pertencer a um outro processo e exige de nós uma outra atitude, já não é tão clara e objetiva, e gera a "polemica eterna" das tercinas3; voltaremos a isso um pouco adiante. Para o momento cabe constatar que o pulso tanto pode ser agrupado em unidades maiores, ou soma de pulsos através do compasso, como pode ser subdividido também por pulsos menores na razão de 1:1, 1:2, 1:3, 1:4, 1:5 e assim por diante.

Com isso temos o elemento cíclico do pulso, com sua contração e expansão, ordenando o fluxo do tempo, se somando e se subdividindo sempre em unidades regulares. Temos na vida cotidiana inúmeros exemplos disso: a semana (compasso) com seus dias (pulso), que por sua vez se subdivide em dia e noite (subdivisão binária), horas, minutos, etc. Por outro lado podemos considerar a semana como o pulso do "compasso lunar quaternário" e se observarmos bem veremos quão repleta destas relações nossa vida está. Como base comum de todos estes aspectos, temos o elemento cíclico, que como vimos é o sustentáculo da nossa consciência temporal terrena.

Andamento

A velocidade do pulso é outro aspecto a ser considerado. Como vimos acima, um pulso lento dilata nossa consciência, podendo nos levar a um estado de contemplação ou mesmo de sono. Já um pulso rápido acorda, excita o nosso sistema neuro-sensorial. A partir de um certo ponto, um pulso muito rápido pode também nublar a consciência, tornar-se hipnótico e até levar-nos a um êxtase. Temos, aqui também, o parâmetro da "medida humana" na a batida do coração e no andar em relação aos quais o rápido e o lento se definem e ganham seu significado. Os termos tradicionais usados para definir o andamento da música (allegro, adagio, presto, vivace, largo, etc.) dizem respeito não somente à velocidade do pulso, mas ao caráter do tempo musical e da obra em si. Isto nos remete novamente ao caminho interno do pulso e à qualidade com que fluímos através dele. Podemos compreender melhor estas sutilezas se observarmos diferentes mastros reger. O bom maestro torna a sua vivência interna do pulso visível no seu gesto e passa ao músico não só uma "velocidade", mas também uma maneira de fluir.

Certamente, a partir de necessidades expressivas, podemos ter diversos andamentos numa mesma peça musical e freqüentemente acelerandos e desacelerandos. Interessante é observar o que causa em nós um acelerando ou um desacelerando do tempo musical. Como nossa consciência gradativamente é levada de um estado a outro.

As qualidades do binário e do ternário

Tentemos captar agora as qualidades dos diferentes compassos ou subdivisões. Se colocamos lado a lado um compasso de dois e um de três pulsos, notamos que o 2 se move entre dois pólos: forte, fraco, forte, fraco.... Já o 3 tem um caráter mais circular e dinâmico. Sentimos que o 2 nos induz a uma consciência mais terrena, concentrada e "dura" enquanto o 3 traz leveza e expansão. A oposição entre a marcha (2) e a valsa (3) ilustra bem este ponto de vista. Seria um tanto grotesco e não efetivo se os amantes marchassem e os soldados fossem à luta valsando!

A partir destas qualidades polares básicas do 2 e do 3, podemos entender, por exemplo, como um grupo de 5 pode conter em si uma expansão (3) e uma contração (2), ou vice-versa (3+2 ou 2+3). Desta forma podemos captar as diversas qualidades dos vários grupos de ciclos, sejam eles compassos, subdivisões e suas múltiplas combinações. O importante é focar a atenção em nossa alma e perceber seu movimento, seu gesto.

O ritmo

Cabe agora a observação, de que na audição e fazer musical, as relações entre compasso, pulso e subdivisão, são apenas a grade de fundo sobre a qual se apoia o elemento rítmico que de fato ouvimos. São como a régua, com suas unidades de medida e referências de acentuação, que usamos para compor e comunicar uma idéia rítmico-musical através de sons longos e curtos.

Olhemos para as células rítmicas básicas dos assim chamados "ritmos gregos", lembrando que os longos nos induzem a uma expansão, a um adormecer mas também a um libertar-se, enquanto que os curtos a uma contração, a um acordar, a um recolher-se.

Usaremos L para grafar os longos e c para os curtos, onde um longo eqüivale a dois curtos.

Dáctilo
L c c
Anapesto
c c L
Anfíbraco
c L c
Espondeu
L L
Tríbraco
c c c
Troqueu
L c
Jambo
c L
Pirríquio
c c
Crético
L c L
Coriambo
L c c L

Sugiro que o leitor experimente com a voz ou algum instrumento, executar repetidamente estas células e procurando perceber seu caráter. Somos levados crer que os gregos possuíam uma percepção qualitativa do gesto anímico de cada um deles a ponto de dar-lhes nomes, que designavam localidades e povos do seu mundo.

A título de exemplo peguemos o "Crético", que têm seu ciclo baseado em 5 unidades de tempo.

2 + 1 + 2
L    c    L

Temos: expansão - contração - expansão; como algo que esta adormecido, tem um súbito acordar e volta a dormir. Particularmente sinto um clima de certa expectativa, de algo que está para nascer, mas apenas se insinua.

Comparativamente o "Coriambo", pela inclusão de mais um curto no seu centro torna-se mais equilibrado, solar e solene. Ele forma um ciclo com 6 unidades de tempo, sendo facilmente vivenciado como um compasso de 3 pulsos.

Desta forma, a célula rítmica ganha não só um significado musical, mas também um significado anímico, um gesto de alma.

A célula básica do nosso conhecido ritmo de "Baião" também pode ser analisada desta forma, só que nela, os curtos e longos se relacionam na proporção de 2:3 e não 1:2 como nos ritmos gregos. Temo-la da seguinte forma:

3 + 3 + 2
L    L    c

A inclusão do elemento "3", traz um caráter novo no movimento, um certo gingado, que não existia enquanto tínhamos apenas a relação 1:2. Compare com a seguinte célula:

2 + 2 + 1
L    L    c

Esta soa mais "dura" e "decidida".

A partir deste ponto cabe também considerar as combinações polirítmicas. Tomemos algo básico, como a combinação 2 contra 3:

______ ______
3   +   3

____ ____ ____
2   +  2  +  2

Aqui temos um compasso que pode ser subdividido em 6 unidades de tempo e que se agrupam simultaneamente em 2 sons com 3 unidades cada, e com 3 sons com 2 unidades cada. A conhecida tercina contra duina. Este padrão rítmico, amplamente presente na música de diversas culturas, mostra um notável equilíbrio entre as forças do 2 e do 3, sendo ao mesmo tempo dinâmico, fluido, e concentrado, terreno. Para captar melhor sua essência, podemos executá-lo (com as duas mãos, uma bate o 2, outra o 3, ou entre duas pessoas etc.) e por alguns momentos subtrair um dos elementos, ora o 2 ora o 3, captando cada uma de suas qualidades próprias, para depois perceber sua inter-relação e resultado comum.

A pergunta é sempre: o que o movimento desta combinação de valores, de curtos e longos e suas iterações diz à minha alma? Que forças ela carrega em si? Como isso afeta meu corpo, minha alma e minha consciência? Como dissemos no prefácio, as observações aqui descritas devem servir apenas como setas que direcionam o olhar do investigador. O melhor é que ele mesmo, experimentando, chegue às suas conclusões.

Um estudo detalhado e aprofundado da grande variedade de ritmos, suas nuances e praticamente infinitas combinações, extrapolaria em muito os limites e a intenção desta obra. Queremos aqui apenas tratar certos princípios básicos e que estes possam tornar-se órgãos de percepção para este vasto mundo rítmico.

Tentando sintetizar o que vimos até agora, poderiamos dizer: o pulso nos conecta com a terra, o compasso e a subdivisão trazem vida e dinamizam este pulso, o ritmo é a manifestação audível, uma criação com longos e curtos que se apoia nos três elementos precedentes e que comunica uma idéia e um sentimento musical.

Naturalmente a infinita variedade de manifestações musicais nos mostra que estes elementos nem sempre se encontram no mesmo plano de importância dentro de uma obra. Temos música com ritmo, mas sem pulso - é o caso do canto gregoriano e outras manifestações de tempo não medido, como o Alap indiano. A vivência do longo e do curto está lá, mas não subordinada a uma unidade regular de tempo. O tempo do texto, o sentido da frase e o arco respiratório nos apontam para uma vivência tênue de unidades temporais, que chegam somente a se caracterizar como um embrião do elemento compasso. Justamente pela ausência de um pulso incarnado vivênciamos este tipo de música como elevado, cósmico ou contemplativo.

Outras manifestações nos mostram um pulso bem estabelecido e um ritmo vivo, mas a ausência de compassos, ou uma métrica tão irregular que a "função compasso", como ordenadora de pulsos, deixa de existir enquanto tal. Podemos encontrar exemplos deste tipo, na música indiana, em peças da idade média e renascença e entre outros, em várias obras do compositor Olivier Messiaen5. Aqui encontramos normalmente uma rítmica complexa e extremamente vivaz, onde tudo flui com leveza e agilidade.

É principalmente na música de dança, e podemos dizer, em toda música dançável, que o compasso ocupa um lugar de destaque. Parece ser condição, para que os membros do corpo humano se concatenem com a música, que esta possua uma métrica regular. Somente bailarinos hábeis e com real sensibilidade musical conseguem fluir em uma métrica livre. Tradicionalmente encontramos nas danças populares, e isso vale para uma Bourrée passando pelo Frevo, Swing, Axé e o Tecno, a ênfase no elemento compasso determinando o fluxo rítmico, o encadeamento harmônico e até o gesto melódico. Uma boa imagem para entender a atuação do compasso é a da usina hidro-elétrica: ela breca e regula o fluxo do rio, mas potencializa sua energia.

 

   
   
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